Crustáceos sustentam a Ponte Rio-Niterói
Análise da ‘saúde’ da estrutura revelou proteção espontânea desenvolvida na Baía que funciona como capa impermeabilizante
POR THIAGO FERES
Rio - Era só um check-up de rotina. Mas a análise completa da ‘saúde’ da Ponte Rio-Niterói, com trabalho de mergulhadores especializados, diagnosticou uma proteção espontânea desenvolvida no concreto submerso que sustenta a estrutura: incrustações marinhas, também conhecidas como cracas, estão funcionando como uma capa que quase ‘impermeabiliza’ os cerca de 1.200 tubulões de concreto — envolvidos por formas de ferro — cravados na rocha do fundo da Baía de Guanabara.
Estudos técnicos da concessionária CCR, que administra a Ponte, mostram que essas incrustações necessitam de uma superfície dura para se fixar. Elas formam uma camada de defesa dos pilares contra infiltrações e, principalmente, a acidez. “Quando isso ocorre, a corrosão atinge primeiro as cracas, impedindo ácidos de penetrar na estrutura”, explicou o professor David Zee, do Departamento de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
As cracas se reproduzem aproveitando a elevada concentração de material orgânico na Baía de Guanabara.
Até o mês de dezembro, a concessionária concluirá toda a avaliação sobre a saúde da via. Quinze mergulhadores participam desde o início do mês da coleta de material estrutural (tubulão de ferro e concreto), que está sendo submetido a análises minuciosas.“Além da manutenção periódica, a cada cinco anos fazemos esse estudo completo. Já retiramos 120 das 300 amostras de ferro e concreto previstas. Elas são dividas em pedaços menores, dando origem a 2.400 ensaios laboratoriais”, contou o engenheiro responsável Cesar Mello, acrescentando que “mesmo tendo sido inaugurados em 1974, os 13 km da via contam com uma saúde estrutural de jovem”. Cada um dos pilares mede 1,8 m de diâmetro por 60 m de comprimento, 30 m submersos.
Segundo a empresa, por ano, são investidos R$ 25 milhões na recuperação da via e R$ 12 milhões na manutenção. À noite, a maioria dos 300 funcionários trabalha nessas operações na Ponte, a oitava maior do mundo e a número 1 do Hemisfério Sul.
Tocha de fogo debaixo d’água
Quinze mergulhadores trabalham diariamente na Ponte Rio-Niterói para fazer a manutenção. O serviço conta com aparelho especial semelhante a um maçarico, capaz de criar tocha de fogo debaixo d’água e extrair partes do concreto dos pilares e dos tubos de ferro. “Temos eletricistas, técnicos e engenheiros na equipe”, conta um dos chefes, Raimundo Bezerra, 50 anos.
Por dia, os profissionais passam 7 horas submersos a profundidade de até 30 m. Mesmo com todo o equipamento de segurança, há risco. “Não podemos conter barcos desgovernados, por exemplo. Já perdi inúmeros companheiros no mar, mas nenhum durante a manutenção da Ponte”, conta.
Fonte: O Dia |